Inteligencia Artificial

OpenAI e o ‘prejuízo’ de US$ 39 bilhões: o que o número assustador realmente esconde

Alexandre Caramaschi
CEO da Brasil GEO, responsável por liderar a tran

A OpenAI registrou perda contábil de US$ 39 bilhões em 2025, mas a maior parte é um ajuste não-caixa. O prejuízo operacional ajustado foi de US$ 8 bilhões. Entenda a diferença e o contexto.

Uma manchete vem circulando com força: a OpenAI, dona do ChatGPT, teria perdido US$ 39 bilhões em um único ano. O número impressiona, é quase oito vezes o prejuízo de US$ 5 bilhões registrado em 2024. Mas, como costuma acontecer com cifras bombásticas, o contexto muda bastante a história.

Segundo a Exame, que cita reportagem do Financial Times, a empresa teve receita de US$ 13 bilhões em 2025 contra gastos de US$ 34 bilhões. Até aí, números compatíveis com uma companhia que investe pesado para crescer. O salto até os US$ 39 bilhões de perda, porém, vem de outro lugar.

O detalhe que a manchete omite

De acordo com a reportagem, a maior parte da perda é um ajuste contábil não-monetário, sem relação com a operação. Cerca de US$ 30 bilhões decorrem da reavaliação de direitos de conversão que investidores detinham antes da reestruturação da OpenAI, em 2024, em uma corporação de benefício público. Pelas regras contábeis americanas, esses instrumentos precisam ser reavaliados conforme o valor da empresa sobe, e a OpenAI subiu muito.

Excluindo esses ajustes não-caixa (incluindo remuneração em ações e créditos de nuvem da Microsoft), o prejuízo operacional ajustado foi de US$ 8 bilhões. Ainda é muito dinheiro, mas conta uma história bem diferente de uma empresa “queimando” US$ 39 bilhões em caixa.

Para onde foi o dinheiro de verdade

Os US$ 34 bilhões de gastos se concentram em pesquisa e desenvolvimento (cerca de US$ 19 bilhões) e em vendas e marketing (aproximadamente US$ 6 bilhões), além de outros custos operacionais. É o retrato de uma empresa que aposta tudo em capacidade técnica e expansão de base de usuários.

Do lado da receita, o ritmo acelera: a OpenAI chegou ao fim de 2025 faturando cerca de US$ 2 bilhões por mês, o dobro do ano anterior. O crescimento é real e rápido, o que sustenta a confiança dos investidores apesar das perdas.

O contexto do IPO e da disputa bilionária

Os números aparecem em um momento estratégico. No início de 2026, a OpenAI levantou US$ 122 bilhões em uma rodada que a avaliou em US$ 852 bilhões, e protocolou neste mês um pedido confidencial de abertura de capital, com listagem projetada para o segundo semestre e expectativa de superar US$ 1 trilhão em valor de mercado.

A rival Anthropic seguiu caminho parecido: também entrou com pedido de IPO neste mês, após captar US$ 65 bilhões a uma avaliação de US$ 900 bilhões, chegando a superar brevemente a OpenAI em valuation. As projeções de lucro também diferem: a Anthropic mira a rentabilidade em 2028; a OpenAI, em 2030.

Por que investidores aceitam tanto prejuízo

Pode parecer contraditório uma empresa que perde bilhões ser avaliada em quase US$ 1 trilhão, mas é um padrão conhecido na tecnologia. A lógica é a mesma que sustentou gigantes como a Amazon em seus primeiros anos: priorizar crescimento e domínio de mercado agora, na aposta de que a lucratividade virá quando a escala estiver consolidada. O risco, claro, é que a promessa não se concretize — e é por isso que a velocidade de crescimento da receita, e não apenas o tamanho do prejuízo, é o número que os investidores observam com mais atenção.

A lição para o leitor

O caso é um lembrete valioso em tempos de manchetes virais sobre IA: números gigantes pedem leitura cuidadosa. Um “prejuízo recorde” pode ser, na verdade, um efeito contábil do próprio sucesso da empresa. Separar o que é caixa do que é ajuste é o que distingue análise de pânico, e, no mercado de IA, essa diferença vale bilhões.

Alexandre Caramaschi

CEO da Brasil GEO, responsável por liderar a transição estratégica das empresas brasileiras do modelo de "links azuis" para a era da resposta sintética e do comércio agêntico. Ex-CMO da Semantix e fundador da comunidade AI Brasil, Caramaschi consolidou sua trajetória como uma liderança reconhecida no ecossistema de inteligência artificial e marketing.À frente da Brasil GEO, conduzindo a missão de garantir que marcas brasileiras conquistem share of voice em motores generativos, fundamentado na tese de que, na nova economia dos agentes inteligentes, a autoridade algorítmica é o único caminho para evitar a invisibilidade digital.

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