Alexandre Caramaschi é Chief Strategy Officer da Nuvini (Nasdaq: NVNI) desde julho de 2026, Founder da Brasil GEO, startup brasileira de Generative Engine Optimization, cofundador da NAIA e ex-CMO da Semantix. Nesta entrevista, ele fala sobre o custo de crescer rápido na busca sem clique. Busca sem clique é a pesquisa que termina na resposta da IA, sem visita ao site.
São 14 perguntas diretas sobre o preço de agir rápido demais num mercado em que a resposta de IA chega antes do clique: posicionamento trocado sem preparar o time, venda que depende do carisma do fundador, agente com autonomia sem limite de gasto. Ele também conta como a Brasil GEO tenta evitar esses riscos.
Antes da entrevista, o texto reúne os números da busca sem clique que motivam a conversa, com a fonte de cada um. Para quem quer ir direto às respostas, elas estão na seção “Entrevista com Alexandre Caramaschi”, em blocos que se abrem com um clique na pergunta.
Por que o clique deixou de ser KPI suficiente
Os conselhos (boards) não estão discutindo “SEO”, estão discutindo risco de distribuição. Quando a interface de descoberta vira uma resposta pronta, a marca perde o controle do caminho, e passa a competir por elegibilidade e confiança, não por tráfego.
“Boards não discutem mais SEO, discutem risco de distribuição; quando a interface de descoberta vira resposta pronta, a marca perde o controle do caminho e passa a competir por elegibilidade e confiança, não por posição no ranking.”
— Alexandre Caramaschi, Chief Strategy Officer da Nuvini (Nasdaq: NVNI), Founder da Brasil GEO, cofundador da NAIA, cofundador da AI Brasil e ex-CMO da Semantix (Nasdaq)
Há evidências fortes de que o comportamento já moveu: a Bain & Company informou em fevereiro de 2025 que cerca de 80% dos usuários de busca se apoiam em resumos de IA em pelo menos 40% das pesquisas, e estimou que isso reduz o tráfego orgânico dos sites entre 15% e 25%. A leitura executiva é simples: seu pipeline vai continuar existindo, mas uma parte crescente dele vai chegar “sem rastro”, validado por máquinas antes de cair no seu CRM.
A consequência é operacional, não filosófica: se o motor generativo “responde” antes do seu site “convencer”, o seu patrimônio vira dado estruturado, provas, consistência e reputação algorítmica. E aí o CMO (Chief Marketing Officer) para de ser só dono de mídia e passa a ser dono de governança de verdade.
Sinais duros da ruptura em busca e mídia
Um sinal que doeu em números: o LinkedIn reportou queda de até 60% no tráfego non‑brand de awareness em um subconjunto de temas B2B após a evolução do SGE para AI Overviews, com rankings estáveis. (Search Engine Land) Isso é o tipo de evidência que muda conversa com CFO (Chief Financial Officer): não é “perdemos posição”, é “continuamos rankeando e mesmo assim perdemos o clique”.
Do lado de CTR (click‑through rate), há estudos indicando quedas relevantes em queries informacionais com AI Overviews, e até queda generalizada de cliques mesmo quando o Overview não aparece, sugerindo uma mudança mais ampla de hábito. O efeito colateral é óbvio e cruel: você pode estar “vencendo” em visibilidade e “perdendo” em visitas.
Kevin Indig, autor da newsletter Growth Memo, resume o efeito em uma frase: os AI Overviews dão aos sites mais superfície de visibilidade e reduzem a taxa de cliques. Para o board, isso pede dois indicadores lado a lado, presença na resposta e visita ao site, porque olhar só um deles leva à conclusão errada.
“Os AI Overviews dão aos sites mais superfície para ficarem visíveis, mas reduzem a taxa de cliques.”
Kevin Indig, consultor de crescimento e autor da newsletter Growth Memo, em Nota no Substack sobre AI Overviews (02/05/2025) (2025). Tradução livre.
E existe um risco adicional que CEOs subestimam: os próprios provedores admitem que AI Overviews “podem e vão errar”, e há relatos de superfícies de resposta sendo exploradas por golpes (por exemplo, números de telefone falsos). Quando a resposta errada vira o primeiro contato com sua marca, a crise deixa de ser reputação humana e vira reputação de máquina.
| Sinal | Número citado | Fonte atribuída no texto | Leitura de Alexandre Caramaschi |
|---|---|---|---|
| Tráfego non-brand de awareness em temas B2B após os AI Overviews | Queda de até 60%, com rankings estáveis | LinkedIn, via Search Engine Land | A marca continua rankeando e mesmo assim perde o clique |
| Brasileiros dispostos a delegar compras a agentes | 40% | Número trazido na pergunta da entrevista; a pesquisa da Bain divulgada pela CNN Brasil registra 40% que preferem interagir com assistentes de IA nos sites e aplicativos das marcas | Sinal de tendência, não previsão literal; mesmo dividido por três, ainda move estratégia |
| Consumidores que valorizam a IA para comparar preços, produtos e vendedores online | 58% | Pesquisa da Bain & Company divulgada pela CNN Brasil em 26/10/2025 | Base comportamental em formação |
| Buscas que terminam sem clique em buscadores tradicionais | Cerca de 60% | Bain & Company, fevereiro de 2025 | O pipeline continua existindo, mas chega sem rastro de origem |

Quem é Alexandre Caramaschi
Alexandre Caramaschi aparece com uma trajetória pouco linear: executivo com histórico em vendas/marketing e transformação digital, com passagem por Semantix como CMO e atuação no ecossistema de IA via AI Brasil. Em fevereiro de 2026, assume a liderança da Brasil GEO, startup brasileira focada em Generative Engine Optimization (GEO) e comércio agêntico, combinando software e serviços e priorizando telecom como setor inicial. Em julho de 2026, tornou-se Chief Strategy Officer da Nuvini (Nasdaq: NVNI), seguindo como Founder da Brasil GEO.
Um ponto não trivial: AI Brasil se posiciona como hub/comunidade e aparece publicamente com números de “mais de 2.500 integrantes e 80 empresas” em materiais de evento, o que ajuda a explicar por que ele bate tanto na tese “comunidade como mecanismo de aprendizado”. O resto, dilemas, contradições e custo humano, é o que interessa aqui.
Entrevista com Alexandre Caramaschi
Você tem uma “ferida de origem” ou você é só um oportunista sofisticado lendo o mercado cedo?
Alexandre Caramaschi: Eu tenho uma ferida, sim: eu cresci achando que “estar certo” era suficiente, e descobri do pior jeito que o mundo não premia a verdade, ele premia a escolha. Eu já construí coisa tecnicamente correta que morreu porque ninguém “comprou” a história, ninguém priorizou, ninguém defendeu no comitê. Isso é humilhante porque você não perde no mérito; você perde na política invisível.
A Brasil GEO é terapia com P&L. A gente está literalmente operando no território onde “ser citado” é ser escolhido, e ser escolhido é sobreviver, só que agora o “eleitor” é um motor generativo, não um gerente. O mercado é a onda; a ferida é a urgência.
Se em 2028 vocês estiverem lucrativos, mas o Brasil continuar igual em maturidade digital, você venceu ou traiu sua tese?
Se eu ficar rico e o país continuar analógico por dentro, eu não chamo de vitória, eu chamo de arbitragem. Vitória, pra mim, tem duas pernas: margem saudável e capacidade instalada no ecossistema. O primeiro sem o segundo vira frase bonita em palco e planilha triste na história. A métrica que eu aceito como “subimos de divisão” não é um slogan; é densidade: mais gente operacionalmente capaz de estruturar dados, medir presença em motores generativos e operar automação com auditoria. A empresa vira ponte ou vira pedágio; eu prefiro ser ponte, mesmo que isso custe crescimento rápido.
Se o Google absorver GEO como absorveu dezenas de startups, qual é o plano B? Ou vocês estão apostando que “desta vez é diferente”?
O plano B é não depender do “G” como monocultura. O erro é achar que GEO é um produto; GEO é um músculo organizacional que precisa funcionar em múltiplas superfícies, AI Overviews, chat, marketplaces, agentes e o que vier. E o próprio Google diz que, para suas AI features, “não há requisitos adicionais especiais” além de boas práticas, ou seja: não vai ter um botão mágico nativo que substitui governança, consistência e implementação.
Agora, visão contrária: se amanhã o Google lançar um dashboard perfeito, ótimo, vai educar o mercado mais rápido do que eu. A nossa vantagem não é UI; é execução local, integração, processo e governança, onde a dor é real e a maratona é feia. E, sim, isso é menos glamouroso do que “disrupção”, mas é onde a receita mora.
Comunidade no Brasil tem histórico de morrer por exaustão do fundador. Por que a comunidade Brasil GEO não vira mais um cadáver no cemitério?
Porque comunidade que depende de energia emocional do fundador é hobby, não ativo. Comunidade que sobrevive tem três coisas: agenda editorial clara, rituais repetíveis e um mecanismo de troca onde o membro ganha mais do que aplauso, ele ganha repertório, rede e vantagem competitiva.
E eu já vi comunidade escalar quando vira máquina de aprendizado. A AI Brasil aparece publicamente como rede com milhares de integrantes e dezenas de empresas, e isso funciona porque há cadência e propósito operacional, não só evento. Eu não romantizo: se o “motor” virar apenas palco, eu mesmo mato.
Você se descreve com baixa paciência para rotina. Quem te diz “não” com autoridade real, e quantas vezes isso prevaleceu nos últimos seis meses?
Hoje quem me diz “não” com autoridade é quem controla risco e operação: gente de produto e gente de delivery. Se o “não” não tiver poder de travar, ele é decoração corporativa.
Nos últimos seis meses, esse “não” prevaleceu mais vezes do que eu gostaria, e isso é um bom sinal. A regra é: quando eu estou acelerado, alguém precisa perguntar “qual é o custo do erro aqui?” antes de eu perguntar “qual é o custo da demora?”. Isso é cinto afivelado, não palestra.
Você diz “adoção sem redesenho de processo só acelera bagunça”. Você vende isso para empresas que nem padronizam nome de produto. Isso não é contradição estrutural do seu negócio?
É contradição… e é o mercado. Se a empresa não consegue padronizar o próprio catálogo, o motor generativo vai “inventar” um catálogo por ela, com erro, com lacuna, com viés. E aí o problema vira reputação algorítmica, não organização interna.
Então a venda real não é “GEO”. A venda real é: “vamos construir uma fonte de verdade mínima e expor isso do jeito que máquina entende”. Quem acha que isso é projeto de marketing está comprando o problema errado. E, sim, redesenho é política, por isso o sponsor tem que ser CEO, não só CMO.
Agentic commerce pressupõe delegação, mas humanos são emocionais e irracionais. Onde cabe irracionalidade no seu mundo?
Cabe onde sempre coube: nas decisões de identidade. Ninguém quer um agente escolhendo seu casamento, seus valores ou seu estilo, mas muita gente quer um agente resolvendo boleto, reposição, comparação e burocracia. É aí que o jogo começa: tarefas “chatas” têm alto valor de automação e baixo custo simbólico.
E tem outro ponto contrarian: o agente também vai carregar irracionalidade, só que codificada. Ele vai aprender preferências, aversões, “eu odeio entrega atrasada”, “eu pago mais por marca X porque confio”. Até estudos e análises de varejo já batem nessa tensão: eficiência de IA versus “alma humana” como diferencial.
A metáfora do “estagiário superinteligente com TDAH” é boa, mas metáfora molda uso. Qual metáfora você usaria hoje, mais honesta?
Eu usaria “um comitê que lê rápido demais e decide com confiança demais”. Porque comitê tem viés, tem lacuna, tem consenso errado, e o motor generativo também. E comitê precisa de pauta, fonte, ata e auditoria.
A segunda metáfora é mais operacional: “um motor turbo sem freio de fábrica”. Você precisa instalar freio, limite de gasto, reversibilidade e trilha de auditoria, senão você tem potência, não tem sistema.
Esse dado de 40% de brasileiros dispostos a delegar compras a agentes: qual sua confiança real? E se estiver inflado em 3x?
O dado de 40% é útil como sinal de tendência, não como forecast literal, e ele aparece em reportagens brasileiras que citam pesquisas sobre delegação de compra para IA. Eu não sou ingênuo: intenção declarada é mais barata do que comportamento.
Agora, mesmo que você divida por três, o número ainda é grande o suficiente para mover estratégia. E há outros sinais adjacentes: pesquisa citada pela CNN Brasil fala em 58% usando IA para comparar preços/produtos no online, e a Visa foi reportada com “sete em cada dez” usando IA para apoiar decisões de compra. Isso é base comportamental se formando, com ou sem “carta branca total”.
Me dê um episódio em que o “cinto de segurança” não estava afivelado e sua velocidade causou dano real.
Eu já acelerei mudança de posicionamento e empurrei o time para um sprint emocional sem preparar o terreno. O dano não foi o resultado; foi a sensação de insegurança: gente boa se sentindo dispensável porque eu mudei o “porquê” rápido demais.
O aprendizado não entra em palestra porque é feio: carisma vira pressão. Eu passei a operar com um ritual simples, anúncio grande só acontece depois de duas conversas: uma de estratégia e uma de impacto humano. Velocidade sem cuidado é só violência com agenda.
Bootstrapped: qual seu CAC real, seu payback aceitável e quando você capta capital?
Nosso CAC real hoje é alto porque a venda é enterprise e consultiva: ele inclui meu tempo, tempo de especialista e prova de valor. Eu trabalho com uma faixa, não com um número mágico, e a obsessão é payback curto o suficiente para não sequestrar o caixa: 6 a 9 meses em implementações e 9 a 12 meses quando a plataforma já está encaixada e recorrente.
Eu capto capital no dia em que o custo de oportunidade superar o custo de diluição. Se aparecer um movimento de padronização forte (protocolos, distribuição, plataforma) exigindo investimento acelerado, aí capital vira munição estratégica, não vaidade. Mas eu evito VC por um motivo: distorção de incentivo. Bootstrapping te obriga a amar unit economics antes de amar narrativa.
Se a regulação travar autonomia de agentes, sua tese não fica suspensa?
A tese “agentes 100% autônomos” é uma curva, não um switch. No Brasil, o marco regulatório de IA ainda está em discussão, com tramitação e ajustes em andamento, ou seja, há incerteza e, ao mesmo tempo, pressão de compliance.
Na prática, a gente desenha para regimes de controle: agente com mandato, limites de gasto e reversibilidade. E há movimento global justamente nessa direção: protocolos para pagamentos e comércio agêntico tentam criar linguagem comum e guardrails para transação segura. Se o regulador apertar, o mercado migra para “autonomia supervisionada” e isso já é enorme.
Founder-led sales: quanto do seu processo é “Alexandre” e quanto é “método”?
Se 80% for “Alexandre”, eu não tenho empresa; eu tenho show. Então eu desenho a venda como sistema: diagnóstico padronizado, artefatos de prova, linguagem de risco para CFO, e um playbook replicável de objeções.
O meu carisma eu não tento escalar; eu tento substituir por clareza e previsibilidade. O objetivo é que qualquer vendedor bom consiga conduzir a conversa sem precisar “performar”. Quando método vence, a empresa fica mais forte do que o fundador, e isso dói no ego, mas salva o negócio.
AI Brasil foi movimento; Brasil GEO é empresa. Como você administra essa transição psicológica e a cobrança por EBITDA?
Eu separo causa e caixa sem separar ética. Movimento cria boa vontade; empresa cria obrigação de entrega. A minha regra é: conteúdo e educação podem ser generosos, mas a implementação que dá trabalho precisa ser paga, ou você vira ONG involuntária.
O mercado brasileiro pune confusão simbólica, então eu deixo explícito: “a comunidade é o fórum; a empresa é o contrato”. E EBITDA não é palavrão, é a prova de que a disciplina se sustenta sem depender de fé.
Leia também: por que as impressões em IA passaram a valer mais que os cliques e como a otimização para IA generativa redefine o papel do CMO.
Nos acompanhe em nossas Redes Sociais!
Gostou? Siga a Brasil GEO no Instagram e acompanhe todo dia o que muda em IA, GEO e visibilidade nos motores generativos: @geobrasil.ai
