A rivalidade entre Anthropic e OpenAI sempre foi um dos motores mais poderosos do avanço da inteligência artificial generativa. Agora, essa disputa ganhou um novo palco: o mercado de ações. As duas empresas que definiram os rumos da IA nos últimos anos correm para abrir capital na bolsa, e quem chegar primeiro pode influenciar não apenas a percepção dos investidores, mas a forma como toda a indústria será avaliada daqui em diante.
A Anthropic saiu na frente. Em 1º de junho, protocolou de forma confidencial os documentos necessários junto aos reguladores americanos. A OpenAI fez o mesmo uma semana depois. O que parecia uma disputa tecnológica agora também é uma disputa de narrativa financeira, e os bilhões em jogo tornam cada movimento ainda mais estratégico.
Uma rivalidade que nasceu dentro de casa
Para entender a intensidade do confronto atual, é preciso voltar ao fim de 2020. Foi quando Dario Amodei, então vice-presidente de pesquisa da OpenAI, deixou a empresa junto com outros pesquisadores para fundar a Anthropic. A motivação declarada era priorizar a segurança dos sistemas de IA, uma crítica velada à direção que Sam Altman imprimia à OpenAI.
Dentro da empresa que ficou para trás, a saída foi lida como uma afronta. A rivalidade entre os dois laboratórios e entre seus fundadores passou a moldar decisões, cronogramas e até o ritmo de lançamentos de produtos.
Em 2022, os rumores sobre o projeto da Anthropic aceleraram os planos da OpenAI. Segundo relatos, Altman determinou que a empresa colocasse um chatbot no mercado o mais rápido possível. O resultado foi o ChatGPT, lançado em 30 de novembro de 2022, que se tornou o aplicativo de consumo com crescimento mais rápido da história. A Anthropic lançou o Claude alguns meses depois e passou anos construindo sua posição no mercado.
Guerra total: como a disputa entre os CEOs acelera toda a indústria
Anastasios Angelopoulos, CEO da Arena, empresa especializada em avaliação de modelos de IA, descreveu a relação entre os dois laboratórios com uma frase direta: “É uma guerra total entre eles. Toda vez que a Anthropic lança algo novo, a aposta é que a OpenAI responderá rapidamente e vice-versa.”
Essa dinâmica de pressão mútua teve consequências positivas para o mercado como um todo. A velocidade com que novos modelos, ferramentas e capacidades foram lançados nos últimos anos reflete diretamente esse ambiente de competição acirrada. Quando a Anthropic lançou uma atualização poderosa do Claude Code no fim de 2025, a OpenAI intensificou seus investimentos em softwares corporativos e ampliou os recursos destinados ao Codex, seu produto para desenvolvimento de código.
A rivalidade também se manifesta em público. Altman criticou campanhas publicitárias da Anthropic. Amodei acusou a OpenAI de usar disputas do rival com o Pentágono em benefício próprio. Em uma cúpula sobre inteligência artificial realizada na Índia, quando o primeiro-ministro Narendra Modi incentivou os executivos presentes a darem as mãos em sinal de união, Altman e Amodei, lado a lado no palco, recusaram o gesto. A cena viralizou.
O IPO como instrumento de narrativa
A corrida para abrir capital não é apenas financeira. É também uma disputa por quem define as regras do jogo para os investidores.
A OpenAI pretende estrear na bolsa com uma avaliação próxima de US$ 1 trilhão. Para analistas do setor, a Anthropic quer chegar antes justamente para estabelecer o padrão de como empresas de IA de ponta apresentam seus resultados financeiros, de forma favorável ao seu próprio modelo de negócios.
Gil Luria, analista da D.A. Davidson, colocou com clareza: uma das razões para a Anthropic querer chegar primeiro ao mercado é definir esse padrão antes da concorrente.
O tema é mais sensível do que parece. As duas empresas utilizam metodologias contábeis diferentes. A Anthropic registra como faturamento o valor total pago pelos clientes por seus serviços de IA, mesmo que parte desse valor seja repassada a parceiros como Amazon e Google. A OpenAI registra apenas a receita líquida, descontando os pagamentos feitos à Microsoft. A diferença pode representar bilhões de dólares na forma como cada empresa se apresenta ao mercado de capitais.
Pressão de todas as direções
A disputa pelo IPO também gerou tensões internas. Dentro da OpenAI, Altman chegou a entrar em conflito com a diretora financeira Sarah Friar sobre a capacidade da empresa de cumprir todas as exigências de uma abertura de capital em prazo tão apertado. Assessores de ambas as empresas lidam com relações cada vez mais delicadas, já que as ofertas são gigantescas e recorrem a alguns dos mesmos bancos de investimento. Para evitar vazamentos, alguns bancos criaram barreiras internas entre as equipes que trabalham em cada operação.
É raro que dois rivais diretos de tamanho porte busquem captar recursos simultaneamente. O mercado financeiro está diante de um evento sem precedentes recentes no setor de tecnologia.
O que essa disputa significa para o ecossistema de IA
Para além dos bastidores corporativos, a corrida entre Anthropic e OpenAI tem implicações concretas para empresas, desenvolvedores e profissionais que dependem dessas plataformas.
A abertura de capital de ambas vai expor, pela primeira vez de forma pública, os números reais por trás dos modelos de linguagem mais utilizados no mundo. Receita, estrutura de custos, dependência de parceiros de infraestrutura e trajetória de crescimento passarão a ser informações auditadas e acessíveis. Isso aumenta a transparência sobre um setor que, até agora, operou em grande parte fora do escrutínio público.
Para empresas que já integram ferramentas de IA em suas operações, como acontece cada vez mais em estratégias de GEO e visibilidade em plataformas generativas, a estabilidade financeira e o roadmap de produto dessas empresas passam a ser variáveis relevantes de longo prazo. Saber em qual infraestrutura apostar, e com qual provedor construir autoridade de marca dentro dos modelos de linguagem, vai depender também de como essas empresas se comportam como companhias abertas.
